F3 · Aulas 17–18

Centros notáveis de um triângulo

Ortocentro do triângulo

Encontro das três alturas. Fica dentro se o triângulo é acutângulo, sobre o vértice reto se retângulo, e fora se obtusângulo. Junto com baricentro e circuncentro, está sempre alinhado na reta de Euler, com $HG=2\,GO$.

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O ortocentro é o ponto de concorrência das três alturas do triângulo, mas seu valor conceitual vai além desse encontro: ele pode ser reinterpretado como o ponto cujas projeções ortogonais sobre os lados coincidem com os pés das alturas, ou ainda como o único ponto do plano tal que cada lado do triângulo é perpendicular ao segmento que une o vértice oposto a ele. Essa leitura ajuda a perceber por que, no triângulo acutângulo, todas as alturas caem internamente; no retângulo, duas alturas se confundem com cateto e a terceira parte do vértice do ângulo reto; no obtusângulo, os pés das alturas relativas aos catetos caem fora do lado, forçando o ortocentro ao exterior.

Em competições como a OBMEP, surgem versões mais algébricas, envolvendo o ortocentro como solução de um sistema de duas perpendiculares.

Dominar a construção via coeficientes angulares, portanto, é o caminho mais seguro para resolver a maioria das questões.

Baricentro do triângulo

Encontro das medianas, sempre interno; é o centro de massa. Divide cada mediana na razão $2:1$ a partir do vértice. Em coordenadas, $G=\left(\frac{x_{A}+x_{B}+x_{C}}{3},\frac{y_{A}+y_{B}+y_{C}}{3}\right)$ — a média simples dos vértices.

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O baricentro é o único dos centros notáveis que depende exclusivamente das posições dos vértices, e não de ângulos ou lados, o que explica sua fórmula ser uma média aritmética simples — e é justamente aí que mora a elegância do conceito. Para visualizá-lo, tome o triângulo de vértices $A(0,0)$, $B(6,0)$ e $C(0,3)$: o ponto médio de $BC$ é $M_a(3;\,1{,}5)$; a mediana de $A$ a $M_a$ tem equação $y = 0{,}5x$. O ponto médio de $AC$ é $M_b(0;\,1{,}5)$, e a mediana de $B$ a $M_b$ tem equação $y = -0{,}25(x-6)$, ou seja, $y = -0{,}25x + 1{,}5$. Igualando: $0{,}5x = -0{,}25x + 1{,}5 \Rightarrow 0{,}75x = 1{,}5 \Rightarrow x = 2$ e $y = 1$. A fórmula confirma: $G = \left(\frac{0+6+0}{3}, \frac{0+0+3}{3}\right) = (2,\,1)$.

Você pode verificar ainda que $G$ divide a mediana $AM_a$ na razão $2:1$: partindo de $A$ até $M_a$, o ponto a dois terços do caminho é exatamente $(2,1)$.

Em nível mais alto, como no ITA, o baricentro surge combinado com vetores: a posição de $G$ é a média vetorial dos vértices, o que permite resolver problemas de pontos notáveis sem calcular coordenadas, usando apenas relações vetoriais e a razão $2:1$, estratégia que economiza tempo e reduz erros de conta.

Incentro do triângulo

Encontro das bissetrizes internas, sempre interno; equidista dos lados, logo é o centro da circunferência inscrita, de raio $r=\frac{A}{p}$, com $p$ o semiperímetro. Confundir incentro com circuncentro é erro clássico: um olha para lados, o outro para vértices.

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O incentro nasce de um fato profundo da geometria: a bissetriz interna de um ângulo é o lugar geométrico dos pontos que equidistam dos dois lados que formam esse ângulo. Como as três bissetrizes internas de um triângulo se cruzam num único ponto, esse ponto equidista dos três lados simultaneamente — e é justamente por isso que ele é o centro da circunferência inscrita, a única que tangencia internamente os três lados do triângulo.

Vale notar que a demonstração da concorrência das bissetrizes usa o teorema da bissetriz interna: se $D$ é o ponto onde a bissetriz de $\hat{A}$ corta o lado $BC$, então $\frac{BD}{DC}=\frac{AB}{AC}$, o que revela como cada bissetriz divide o lado oposto em segmentos proporcionais aos lados adjacentes.

Circuncentro do triângulo

Encontro das mediatrizes; equidista dos vértices e é o centro da circunferência circunscrita, de raio $R=\frac{abc}{4A}$. No triângulo retângulo cai exatamente no ponto médio da hipotenusa — daí o ângulo inscrito no semicírculo ser reto.

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O circuncentro é o ponto que resolve, ao mesmo tempo, um problema de distâncias e um de ângulos. Ele é o único ponto do plano tal que as perpendiculares baixadas aos lados passam pelos seus pontos médios — ou seja, é a interseção das três mediatrizes, e como cada mediatriz é o lugar geométrico dos pontos equidistantes das extremidades de um lado, o circuncentro fica à mesma distância dos três vértices. Essa distância comum é o raio $R$ da circunferência que passa pelos três vértices, e é justamente aí que ele se conecta com a lei dos senos: $\frac{a}{\operatorname{sen}A}=2R$, relação que costuma aparecer disfarçada em questões de trigonometria no triângulo.

Vale notar ainda que a posição do circuncentro depende do tipo de triângulo: em acutângulo ele é interno, em obtusângulo é externo, e em retângulo coincide com o ponto médio da hipotenusa, o que explica por que a mediana relativa à hipotenusa mede metade dela.

Teorema do quadrilátero inscritível

Um quadrilátero convexo é inscritível numa circunferência se, e somente se, seus ângulos opostos são suplementares: $\hat A+\hat C=\hat B+\hat D=180°$. Nele vale o teorema de Ptolomeu, $AC\cdot BD=AB\cdot CD+BC\cdot AD$, cobrado na ITA.

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O critério angular é apenas a porta de entrada: um quadrilátero é inscritível quando existe um ponto equidistante dos quatro vértices, e isso ocorre exatamente quando dois vértices opostos enxergam o mesmo lado sob ângulos iguais — se $\angle ADB=\angle ACB$, então $A$, $B$, $C$ e $D$ são concíclicos, pois ambos os ângulos subtendem a corda $AB$ na mesma circunferência. Daí decorre a recíproca útil na prática: ao provar que $\hat A+\hat C=180°$, você automaticamente garante a existência da circunferência circunscrita, o que permite transportar ângulos e comprimentos entre triângulos aparentemente desconexos. A Potência de Ponto complementa o arsenal: se as diagonais $AC$ e $BD$ se cruzam em $P$, vale $PA\cdot PC=PB\cdot PD$, relação que, somada a Ptolomeu, resolve muitos problemas de configuração.

Exemplo concreto: no quadrilátero $ABCD$ inscrito com $AB=3$, $BC=4$, $CD=5$ e $AD=6$, Ptolomeu exige $AC\cdot BD=3\cdot5+4\cdot6=39$; se o enunciado der que $AC=6$, então $BD=39/6=6{,}5$, valor que dificilmente sairia por Lei dos Cossenos sem muita álgebra.

Teorema do quadrilátero circunscritível

É circunscritível a uma circunferência se, e somente se, as somas dos lados opostos são iguais: $AB+CD=BC+AD$ (teorema de Pitot). Vem de que os dois segmentos tangentes traçados de um mesmo ponto externo têm medidas iguais.

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O Teorema de Pitot estabelece uma condição necessária e suficiente, mas com uma ressalva importante: a recíproca só vale para quadriláteros convexos. Num quadrilátero convexo, se $AB+CD=BC+AD$, então existe uma circunferência tangente aos quatro lados. A demonstração da recíproca é mais sutil que a da ida: constrói-se a circunferência tangente a três lados (cujo centro é a interseção de duas bissetrizes internas) e mostra-se, usando a igualdade das somas, que o quarto lado também é tangente. Sem a convexidade, a condição falha: um quadrilátero cruzado (em forma de "borboleta") pode ter somas opostas iguais sem admitir circunferência inscrita, pois os "lados" se interceptam e a noção usual de tangência interna se perde.

Vale lembrar também que o teorema se aplica a quadriláteros circunscritíveis em geral, e não apenas a trapézios: um trapézio isósceles, por exemplo, só é circunscritível quando a soma das bases iguala a soma dos lados não paralelos — o que ocorre em casos específicos, não em todos. Para fixar, considere o quadrilátero convexo $ABCD$ com $AB=5$, $BC=4$, $CD=7$ e $AD=8$: como $5+7=12$ e $4+8=12$, ele é circunscritível.

Relações métricas nos polígonos regulares

Com raio $R$ da circunscrita e apótema $m$ da inscrita: $\ell_{3}=R\sqrt{3}$, $\ell_{4}=R\sqrt{2}$, $\ell_{6}=R$; em geral $\ell_{n}=2R\operatorname{sen}\frac{180°}{n}$ e $m_{n}=R\cos\frac{180°}{n}$. O hexágono regular é o único cujo lado iguala o raio.

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A chave para dominar polígonos regulares é perceber que tudo decorre de um único triângulo retângulo formado ao se ligar o centro $O$ a dois vértices consecutivos e ao ponto médio do lado entre eles: a hipotenusa é o raio $R$ da circunferência circunscrita, um cateto é o apótema $m$ (distância do centro ao lado, que coincide com o raio da circunferência inscrita) e o outro é metade do lado, $\ell_n/2$, oposto ao ângulo central de $360°/n$ dividido por dois, ou seja, $180°/n$. Daí saem imediatamente as duas relações $\ell_n = 2R\,\mathrm{sen}(180°/n)$ e $m_n = R\cos(180°/n)$, e qualquer problema se resolve identificando o que é dado (lado, apótema ou raio) e escolhendo a expressão adequada — repare ainda que $\ell_n^2/4 + m_n^2 = R^2$, um Pitágoras disfarçado que serve de atalho.

Como exemplo concreto, tome um hexágono regular inscrito em circunferência de raio $R = 10$ cm: o lado vale $\ell_6 = 2\cdot 10\cdot\mathrm{sen}\,30° = 10$ cm, e o apótema $m_6 = 10\cos 30° = 5\sqrt{3} \approx 8{,}66$ cm; o perímetro é $60$ cm e a área, dada por $\frac{1}{2}\cdot\text{perímetro}\cdot m_6$, resulta em $150\sqrt{3}\ \mathrm{cm}^2$. Note o ganho de generalidade: por semelhança, fixar apenas $\ell_n$ já determina $R = \ell_n/[2\,\mathrm{sen}(180°/n)]$ e $m_n$ pela mesma proporção, de modo que basta um dado numérico para reconstruir a figura inteira — e vale lembrar que, para um polígono regular circunscrito à mesma circunferência, o apótema coincide com o raio $r$ da circunferência inscrita.

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  • Centros notáveis do triângulo

    Arraste os vértices: ortocentro H (alturas), baricentro G (medianas), incentro I (bissetrizes, centro do círculo inscrito) e circuncentro O (mediatrizes). H, G e O ficam alinhados na reta de Euler.